Por uma prática comum de reciclagem de materiais na arquitetura

Notícia de 30/7/2020 

 

Instituir a reciclagem de materiais como uma prática cotidiana no campo da arquitetura e da industria da construção exigiria, sem dúvida, uma abordagem de cima para baixo além de ajustes nos processos de projeto e uma revisão completa dos sistemas construtivos mais usuais. Ainda assim, pequenas iniciativas estão provocando consideráveis mudanças neste cenário, forçando os profissionais a repensarem questões relativas ao desperdício assim como uma transformação completa na própria industria da construção civil.

Neste contexto, este artigo esmiuçará alguns dos projetos mais inovadores realizados ao longo dos últimos anos, realizações que nos mostram que a reciclagem de materiais na arquitetura não é nenhum bicho de sete cabeças. 

 

 

Antes de mais nada, é importante ressaltar que a reciclagem na arquitetura é uma prática que, ainda hoje, enfrenta uma série de obstáculos, desafios e preconceitos. Em primeiro lugar temos a falta de regulamentação e informações mais precisar sobre os materiais potencialmente recuperáveis. A ausência de infraestruturas de armazenamento e empresas dedicadas à este serviço dificultam ainda mais a reutilização de materiais na indústria da construção.

Finalmente, a banalização da demolição como uma solução prática e barata em detrimento à desmontagem e reciclagem é outro agravante da precária situação em que a arquitetura se encontra. Por outro lado, as seguintes iniciativas encontraram maneiras de driblar esses desafios, apresentando uma visão mais otimista daquilo que precisamos fazer para promover, difundir e viabilizar a reciclagem de materiais na arquitetura em uma escala mais ampla.

 

Promoção do conhecimento sobre economia circular

 

 

A pesquisa têm sido a principal ferramenta utilizada pelos arquitetos para promover uma maior conscientização à respeito da importância da reutilização de materiais na economia circular. Um ótimo exemplo disso é o BAMB (Buildings As Material Banks), um projeto de pesquisa patrocinado pela União Européia com a principal finalidade de estabelecer dois importantes conceitos: a instituição do passaporte de materiais e a difusão da prática de projetos reversíveis.

Da mesma forma, o protótipo experimental UMAR (Urban Mining & Recycling) integrado à estrutura do the NEST, na Suíça, é uma iniciativa dedicada à preencher a lacuna entre o laboratório de pesquisa e a industria da construção, promovendo o uso de materiais totalmente reutilizáveis ou recicláveis, dentro da abordagem Design for Disassembly (DfD).

Desenvolvido por Werner Sobek, em conjunto com Dirk E. Hebel e Felix Heisel, o UMAR foi concebido como um exercício de projeto e construção que utiliza apenas materiais reversíveis e componentes reciclados, como chapas de cobre reaproveitadas e materiais de isolamento reutilizados. Através deste esforço, os arquitetos esperam popularizar a idéia de edifícios como repositórios de materiais. 

 

 

 

Coletando dados para a reciclagem de materiais 

 

 

Inspirado pela ideia de edifícios como estoques de materiais de construção, o arquiteto holandês Thomas Rau criou o Madaster, um banco público de dados com materiais utilizados e catalogados em projetos existentes, destinados a reutilização quando estas estruturas chegarem ao fim de sua vida útil, minimizando assim o desperdício da construção civil no futuro. Lançada em 2017, esta biblioteca on-line e acessível é o primeiro registro global de materiais de construção disponíveis para reciclagem.

A plataforma opera na forma de um catálogo ou registro, identificando cada um dos materiais e componentes disponíveis, definindo uma valor de uso em seu passaporte, algo que facilitará e muito o processo de reciclagem e reutilização destes materiais no futuro. Com mais de dois milhões de metros quadrados de materiais e componentes registrados no Madaster até agora, a plataforma é uma das principais iniciativas desta natureza, uma importante contribuição para que a Holanda cumpra sua meta de migrar para um sistema de economia circular até o ano de 2050.

 

Serviços ao invés de produtos

Outra idéia concebida com a intenção de facilitar a reciclagem de materiais na construção civil é repensar alguns produtos na forma de serviços, onde a propriedade permanece com o fabricante, que por sua vez será responsável por recolher e reciclar o material ao final de sua vida útil. O arquiteto Thomas Rau também incorporou essa ideia em seu bando de dados, oferecendo parcerias para algumas das principais fabricantes de luminárias e eletrodomésticos, instituindo um primeiro passo em direção a esta nova abordagem orientada a serviços para a construção e não mais produtos. O conceito já foi colocado em prática durante a reforma do aeroporto Internacional de Amsterdã Schiphol, onde as luminárias não são de propriedade do aeroporto, e sim do fabricante, responsável tanto pela sua manutenção quando reciclagem.

 

Recuperando componentes de construção

 

 

Enquanto derrubar, demolir e transformar edifícios obsoletos em escombros ainda segue sendo a norma na industria da construção civil, um coletivo de arquitetura belga está tentando nos mostrar que um outro caminho é possível. O escritório colaborativo de arquitetura Rotor, através de uma nova iniciativa chamada de Rotor Deconstruction, tem se dedicado a pôr em prática todo o conhecimento adquirido ao longo de anos de pesquisa na área, transformando-se em uma das primeiras empresas de desmontagem e reciclagem de edifícios na Europa e no mundo, trabalhando com a recuperação e a comercialização de materiais reutilizados da construção civil.

 

Pensando fora da caixa

Às vezes, é possível encontrarmos materiais recicláveis para a construção fora do próprio mundinho da arquitetura. Isso foi o que o escritório holandês Superuse descobriu. Em um de seus mais recentes projetos, o Wikado Playground, reutilizou antigas pás de turbinas eólicas para criar uma paisagem inspiradora para as crianças. Com projetos que variam de instalações temporárias a edifícios permanentes, o estúdio tem se dedicado à explorar todo o potencial dos fluxos residuais, até mesmo aqueles que ainda não parecem ter nenhuma intercessão com o campo da arquitetura.

Para desenvolver esse tipo de abordagem, os arquitetos holandeses procuram primeiro por materiais disponíveis para a reciclagem, coletando informações sobre quantidade, qualidade e possíveis aplicações para, em seguida, dar início ao processo de projeto de acordo com as potencialidades dos materiais encontrados.

 

Pionerismo

 

 

Um escritório de arquitetura que já conseguiu incorporar a utilização de materiais 100% reciclados em seu fluxo de trabalho é o Lendager Group. A empresa dinamarquesa é um ótimo exemplo de como a prática da reciclagem de materiais na construção civil pode ser viável dentro de uma economia circular, transformando e ressignificando resíduos em valiosos recursos para a arquitetura.

Um belo exemplo disso é o projeto Residência de Férias, no qual eles reutilizaram tijolos de demolição de estruturas vizinhas, enquanto as paredes, painéis e fachadas foram executadas em madeira reaproveitada por um fabricante local de pisos. De forma muito similar, o Upcycle Studios, também projetado pela Lendager, é um edifício residencial construído a partir de resíduos de concreto da construção do metrô de Copenhague, incorporando ainda antigas esquadrias recicladas de estruturas abandonadas do entorno.

Para viabilizar esta empreitada, o escritório teve que criar do zero uma nova tipologia de negócio, investindo em pesquisar e projeto. Por isso tudo, o Lendager Group é um exemplo de que sim, é possível fazer da reciclagem de materiais de construção a base de uma prática de arquitetura comprometida com o uso mais consciente de recursos. Ainda assim, esse esforço permanece fora da alçada da maioria dos escritórios de arquitetura, pois exige investimento de tempo e dinheiro em campos ainda pouco desenvolvidos ou até inexistentes.

Os exemplos apresentados anteriormente, em sua maioria esforços individuais, nos oferecem um panorama dos principais desafios e dificuldades que enfrentaremos no caminho em busca de estabelecer a reciclagem de materiais como uma prática cotidiana no ofício da arquitetura e da industria da construção. Por enquanto, este fenômeno permanece à margem das principais correntes da arquitetura, e seu processo, impreciso. Iniciativas voltadas à promoção e difusão da reciclagem de materiais na arquitetura trazem consigo uma dose extra de responsabilidade, o que ainda hoje assusta muitos de nossos colegas.

É inútil dizer que, antes de mais nada, precisamos repensar a forma como concebemos e construímos nossos edifícios, onde o desperdício impera absoluto, longe de ser considerado um dos principais problemas da industria da construção civil como um todo. Para tanto, ainda temos um longo caminho pela frente e uma mudança tão radical de comportamento demandaria uma revisão total da própria disciplina da arquitetura, da sala de aula ao canteiro de obras.

 

Fonte: Archdaily

 

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